Imagine um homem do século XVIII.

Engenheiro, inventor, estudioso de matemática, astronomia, anatomia, mineração e mecânica. Um intelectual que passou boa parte da vida tentando compreender o funcionamento da matéria e do corpo humano.

Então esse mesmo homem começa a afirmar que consegue perceber uma realidade invisível, conversar com pessoas mortas e encontrar seres de outros mundos.

Parece personagem de ficção científica.

Mas Emanuel Swedenborg existiu. E deixou milhares de páginas escritas.

Antes do visionário, existia o cientista

Swedenborg nasceu em Estocolmo, em 1688, em uma Europa que estava mudando a maneira de compreender o Universo. A astronomia avançava, a anatomia revelava novos territórios do corpo humano e a investigação da natureza ganhava ferramentas capazes de desafiar antigas explicações.

Swedenborg mergulhou nesse mundo. Estudou matemática, astronomia, mecânica e ciências naturais. Depois de viajar pela Europa, trabalhou com o inventor sueco Christopher Polhem e, mais tarde, ocupou um posto no Conselho de Minas da Suécia, instituição fundamental para a economia do país.

Durante décadas, publicou trabalhos sobre mineração, metalurgia, engenharia e ciências naturais. Antes de escrever sobre anjos, Swedenborg escrevia sobre máquinas, minerais e as leis da natureza.

Sua Opera Philosophica et Mineralia — Obras Filosóficas e Mineralógicas — foi publicada em 1734. A obra, composta por três volumes, tratava de filosofia natural e metalurgia. O futuro visionário ainda procurava respostas observando a matéria.

A pergunta que o levou ao cérebro

Mas minerais e máquinas deixaram de ser suficientes. Swedenborg começou a perseguir uma pergunta muito mais difícil:

Como matéria, pensamento e consciência se relacionam?

Ou, usando a linguagem de seu próprio tempo: onde a alma encontra o corpo?

A busca o levou à anatomia e ao estudo detalhado do cérebro e do sistema nervoso. Ele queria compreender percepção, movimento, pensamento e a possível relação entre corpo e alma.

Entre as obras desse período está Oeconomia Regni Animalis — A Economia do Reino Animal.

Não precisamos transformá-lo em um neurocientista moderno para perceber o tamanho da pergunta que estava fazendo. Ele era um pesquisador do século XVIII e suas ideias precisam ser compreendidas dentro daquele contexto.

O interessante é perceber até onde sua pergunta o levou. Porque, enquanto investigava a fronteira entre matéria e consciência, alguma coisa começou a acontecer com o próprio investigador.

Quando a experiência deixou de caber na ciência

Na década de 1740, Swedenborg passou por um período intenso de sonhos, experiências religiosas e estados que interpretou como visionários. Sua trajetória começou a mudar.

Ele passou a afirmar que seus sentidos espirituais haviam sido abertos e que conseguia perceber uma realidade normalmente invisível aos seres humanos. Dizia conversar com espíritos e pessoas falecidas. Dizia conhecer regiões do mundo espiritual.

Mas há um detalhe particularmente curioso: Swedenborg não abandonou completamente a maneira de pensar do antigo investigador.

Ele continuou observando. Comparando. Classificando. Registrando.

Era como se o homem que passara décadas estudando o mundo material simplesmente tivesse voltado seus instrumentos — agora outros instrumentos — para um território que acreditava existir além dele.

Swedenborg e os habitantes de outros mundos

Em 1758, Swedenborg publicou em Londres De Telluribus in Mundo Nostro Solari..., obra hoje conhecida em inglês como Other Planets. Em português, podemos traduzir o título de forma abreviada como Outros Planetas ou Terras no Universo.

Nela, Swedenborg descreveu aquilo que acreditava serem encontros com espíritos associados a outros mundos: Mercúrio, Júpiter, Saturno, Vênus e Marte.

Sim. Marte.

Estamos falando de um homem escrevendo no século XVIII, muito antes da ufologia moderna, dos discos voadores da cultura popular e das primeiras sondas enviadas para fotografar outros planetas.

Isso significa que Swedenborg realmente conversou com habitantes de Marte? Historicamente, podemos afirmar outra coisa — e ela já é extraordinária o bastante: Swedenborg afirmou que teve essas experiências e publicou seus relatos.

Não existe comprovação científica de que esses encontros tenham ocorrido objetivamente. Podemos interpretá-los como experiências religiosas, fenômenos visionários, construções simbólicas ou acontecimentos que Swedenborg compreendia literalmente. Mas o documento existe.

O cientista que atravessou uma fronteira

Depois de sua transformação espiritual, Swedenborg produziu uma enorme quantidade de escritos teológicos. Entre os mais conhecidos estão Arcana Coelestia — Segredos do Céu —, Heaven and Hell — Céu e Inferno — e Divine Love and Wisdom — Amor e Sabedoria Divinos.

Suas ideias atravessaram os séculos e despertaram interesse muito além dos círculos religiosos. Mas talvez o aspecto mais fascinante de sua trajetória esteja justamente na dificuldade de separá-la em duas vidas.

Existe o Swedenborg cientista. Existe o Swedenborg visionário. Só que os dois habitavam o mesmo homem.

Ele começou fazendo perguntas sobre máquinas. Depois, sobre minerais. Sobre o corpo. Sobre o cérebro. Sobre a consciência.

Existe alguma coisa além daquilo que conseguimos perceber?

Quando a História encontra a ficção

Foi pesquisando Emanuel Swedenborg que surgiu outra pergunta.

E se voltássemos ao século XVIII?

E se encontrássemos Swedenborg ainda tentando compreender cientificamente a fronteira entre matéria e consciência? E se, durante essa investigação, alguma coisa acontecesse — algo que seus conhecimentos de anatomia, física e mecânica não fossem capazes de explicar?

E se o homem que um dia escreveria sobre outros mundos começasse, simplesmente...

a ouvir Marte?

Foi dessa provocação que nasceu O Homem que Ouvia Marte.

Uma ficção histórica inspirada em um homem real e em suas inquietações, sem transformar imaginação em documento histórico.

O conto está em desenvolvimento. Para acompanhar a publicação, siga Lysandra no Instagram.

Porque existem lugares em que os registros terminam. E é justamente nesses espaços que a ficção pode fazer sua pergunta favorita:

E se...?

Quer conhecer o Swedenborg histórico?

A Swedenborg Foundation mantém um amplo acervo dedicado à vida e à obra de Emanuel Swedenborg, com informações biográficas e diversas obras disponíveis em formato digital.

Consulte o acervo da Swedenborg Foundation

Fontes e créditos